Jornalismo digital: As evoluções da Big Data nas formas de comunicar e gerar lucro

Correr riscos e inovar sempre. O jornalismo digital é sobre experimentar novas linguagens e maneiras de dialogar com o público levando informações relevantes.

Escrito por: Pollyana Dias

Jornalismo digital não engloba apenas a capacidade de “escrever para Internet”. Do mesmo modo, o jornalismo guiado por dados não se restringe, simplesmente, à exaustiva tarefa de coletar e “traduzir” informações fixadas em planilhas e tabelas complexas. Vamos usar, aqui, a expressão jornalismo beta para integrar as possibilidades e métricas que as evoluções tecnológicas têm ditado à profissão nos últimos anos. 

Para explicar isso tudo de forma eficaz, uma pequena viagem no tempo. No Brasil, a revolução industrial se deu lá pelo ano de 1900. Com ela, surgiram também os conglomerados industriais, as multinacionais e, consequentemente, a produção em série. O cenário viabilizou a expansão dos meios de comunicação no País, eclodindo a sociedade de consumo de massas. 

Assim, toda a estruturação de rádio, TV e impressos em geral seguia um modelo de negócios padrão. A captação de lucro dos veículos de comunicação giravam em torno dos próprios veículos. Se uma pessoa queria vender ou comprar alguma coisa, teria que recorrer à essas mídias, colocando um classificado em um jornal ou revista, por exemplo. 

Homem idoso sentado lendo jornal.

Os jornais impressos, antes do boom da Internet no Brasil e no Mundo, era uma das poucas fontes de informação e, também meio de publicidade.

O boom da Internet modificou a forma de comunicar 

Apesar de ter chegado por aqui em 1988, foi na década de 1990 que a Internet e as plataformas digitais começaram a pulverizar esse modelo industrial de produção. O custo de entrada para se comunicar com as pessoas, no mundo virtual, era zero. Qualquer um, a partir de então, seria capaz de estabelecer um diálogo com qualquer outro. E a nível global. 

A lei da oferta e da demanda é um princípio econômico básico. Assim, certamente, se há um aumento na oferta de conteúdo, seja ele profissional ou não, os preços tendem a cair. E caíram. Atualmente, é tudo muito mais diversificado. A concorrência é grande e a Internet não é mais “de graça”.

Logo, há uma competição mais acirrada pelos recursos publicitários, que são finitos. Apesar das evoluções e revoluções tecnológicas, não houve um aumento expressivo no volume de publicidade de negócios. O que ocorreu foi uma transferência de capital de uma frente para outra.

Isto posto, um dos grandes desafios para as empresas de comunicação, hoje, é o de gerar faturamento ao transitar pelos multi recursos disponíveis. Afinal, o antigo modelo publicitário já não é mais eficaz. Portanto, é preciso aprender a empreender de um novo jeito. E não é tarefa das mais simples captar valor em cada um dos segmentos em que se decide atuar.

Segundo Lorena Tárcia, Doutora em Comunicação Social e professora de Jornalismo Online no Centro Universitário de Belo Horizonte, o jornalismo de qualidade precisa de formas de sobreviver nesse ambiente. “Um ecossistema de sustentação não depende mais da publicidade vendida. Está em torno das competências jornalísticas de uma organização, que atuam a favor da produção de notícias”, afirma. 

Palavra de quem passou do impresso para o digital 

A repórter investigativa Joana Suarez (33) viveu esse período da transição midiática. “A mudança para o digital foi muito sentida na minha geração de jornalistas, porque pegamos o ‘fim’ do impresso. As redações eram grandes e se focava no espaço e no papel. Era sempre bom conseguir emplacar uma manchete ou uma matéria de página inteira. Tínhamos esse tipo de parâmetro para definir o que era conteúdo bom e especial”, conta. 

Desde então, as redações enxugaram muito e o impresso perdeu valor. E durante esse processo, as empresas de comunicação começaram a ampliar sua presença no mundo virtual. “Mais, ao mesmo tempo, aquela redação seguia centrada no papel. Não conseguiam tirar o foco do espaço, da manchete e do tamanho da matéria. Do que seria matéria de capa ou secundária. Com isso, a qualidade do jornalismo impresso diário, pra mim, caiu muito”, aponta a premiada repórter. 

Repórter investigativa Joana Suarez com seu prêmio internacional Global Health Reporting Contest 2018, concedido pela ICFJ (International Center For Journalist)

A repórter investigativa Joana Suarez com seu prêmio internacional Global Health Reporting Contest 2018, concedido pela ICFJ (International Center For Journalist).

“O jornalismo digital supre aquelas grandes reportagens que se fazia antes nas redações, de maior investimento de tempo, com temas e assuntos aprofundados, levando para o leitor uma informação mais esclarecida. Atualmente, como freelancer, o meu foco é somente no jornalismo digital. Às vezes, escrevo para a Folha e para a Piauí, que também têm impressão em papel. No entanto, faço a matéria pensando no online, porque ela vai ser boa independentemente do tamanho. Diferente do impresso, que apenas considerava a matéria boa quando era capa ou manchete”, relata. 

Detalhe importante: “Nos preocupamos com o tempo do internauta de frente para a notícia. O tamanho, no online, tem que ser pensado de acordo com os minutos que o leitor vai disponibilizar para a matéria”. 

Mais trabalho, mais credibilidade 

Mas será que as multi possibilidades que enriquecem o texto facilitam o trabalho do jornalista? Suarez salienta que não: “No online é mais difícil, porque se exige muito mais do repórter. Afinal, ali você consegue colocar para os leitores até mesmo os links de onde está tirando as informações. A notícia tem que ser muito bem checada e exposta. Para o impresso, eu fazia as apurações e colocava o resumo delas no papel – e o leitor que acreditasse que tudo o que escrevi é verdade. Para o online, as reportagens exigem mais dados e investigação. E podem ser completamente checadas. Isso só é possível no digital”. 

Comunicando na velocidade da luz… 

Ou melhor dizendo, na velocidade do mundo digital. Em seu livro “Vida Digital” (1995), Nicholas Negroponte, pesquisador do MIT, apresenta como seria o cotidiano dos seres humanos inseridos em um mundo digital. Naquele momento, a realidade apresentada parecia algo muito distante. 

Segundo o visionário e grande idealizador do projeto One Laptop per Child (um laptop por criança, em tradução livre), a melhor maneira de avaliar os méritos e as conseqüências da vida digital é refletir sobre a diferença entre bits e átomos. O papel (átomo) vai cedendo lugar aos impulsos eletrônicos (bits), que podem viajar a grandes velocidades pelas auto-estradas da informação. 

Sim, apurar uma informação e publicar antes dos concorrentes, o famoso “furo”, continua importante. Mas é ainda mais importante levar informação de qualidade com credibilidade. Afinal, criar um modelo de negócios para Internet não significa, necessariamente, apenas monetizar na Web. 

O ideal é gerar um modelo comercial que promove uma estratégia integrada, na qual múltiplas iniciativas são empregadas. E isso se aplica até mesmo na integração com as pessoas, que se transformaram em veículos. O que podemos verificar com os influenciadores digitais e apresentadores de canais no YouTube, por exemplo. 

O jornalista como persona 

Uma opção para ajudar a construir ou resgatar os valores da marca pela credibilidade é transformar os próprios jornalistas em comunicadores que se engajam como personas dentro do ambiente digital. O Portal Uai, do Jornal Estado de Minas, para citar um caso análogo, tem trabalhado nisso. Uma de suas personas é Luiz Othavio Gimenez (26), o Zotha, apresentador do canal “Xôtifalá” há quase cinco anos.  

Luiz Othavio Gimenez

Luiz Othavio Gimenez, mais conhecido como Zotha, apresentador do canal “Xôtifalá”.

“É um produto que cresce e amadurece comigo. As experiências e a cabeça mudam tanto profissionalmente, quanto socialmente. O canal é crítico, debochado e voltado para o comportamento da sociedade. E dentro de um veículo de comunicação não tinha isso, essa persona que fala, com a redação de fundo, sobre opinião e fatos relevantes”, ressalta. “Acho que é muito legal o jornal abrir essa porta, porque não é a opinião da empresa que está ali, é a opinião do jornalista que trabalha na organização e tenta dialogar com o maior número de pessoas possível. E creio que este seja um caminho sem volta, porque as coisas estão cada dia mais personalizadas”, inteira. 

“É um respiro em meio ao jornalismo tradicional. O jornal tem 90 anos, a coluna vai fazer cinco. Não perde o caráter experimental, porque não é uma coisa fechada. Pode ser tanto a gravação da paródia de um clipe, como um assunto sério. É o que dá mais fôlego para o produto”, completa o jornalista, que trabalha para o grupo desde 2012. 

O jornalismo digital é um caminho sem volta 

Em 2012, pelo menos seis em cada dez jornalistas que atuavam com mídias digitais trabalhavam em meios impressos. Pelo menos 44,6% produziam exclusivamente para Internet (como podemos verificar nos casos de jornalistas que produzem exclusivamente para portais de notícias de impressos, por exemplo). Para TV, rádio ou cinema, 33,6%; outras mídias, 20,5%. 

A pesquisa sobre o perfil do jornalista brasileiro foi realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2012, sendo divulgada apenas em 2016 pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Obviamente, este cenário já sofreu mudanças extremas. Afinal, em sete anos, muito já se evoluiu no âmbito do jornalismo digital, que cresceu exponencialmente. 

Atualmente, o profissional tem em mãos as ferramentas necessárias para empreender sem depender de uma organização. Saber como utilizar as plataformas digitais é compreender que elas não precisam apenas de um bom texto informativo. Para conseguir destaque nos buscadores, é necessário compreender os dados que esses sistemas disponibilizam e trabalhar a partir daí. É se preocupar não apenas com o conteúdo, mas, também, com a forma como ele é construído (SEO), com as métricas das redes sociais etc.. 

É preciso ter em mente que o sucesso em se trabalhar com jornalismo digital está diretamente ligado ao interesse de se permitir adquirir novas habilidades. A colaboração é um excelente caminho. Nem todo profissional tem ou terá interesse em aprender sobre programação, algo que pode ser extremamente útil na construção da carreira. Por outro lado, temos uma crescente comunidade de jornalistas de dados no País. 

A publicidade vai continuar migrando para as plataformas digitais, porque elas são muito boas em criar produtos digitais. As redes são mutantes e, através delas, as empresas conquistam cada vez menos alcance orgânico. E então surge uma briga de poder. 

Plataformas de mídias sociais X empresas jornalísticas 

Em 2015, o Facebook anunciou que tinha interesse em hospedar conteúdo de jornais e concentrar circulação de notícias. Assim, em vez de acessar um site para se informar, bastaria que o usuário acessasse a rede social. A partir disso, as empresas contam com cada vez menos alcance orgânico. E do ponto de vista comercial, isso é péssimo para as empresas. 

Não sabemos, nós, sociedade, como as maiores plataformas digitais do mundo definem algoritmos e determinam o que podemos ver ou não. Não sabemos. Por isso, se uma organização deseja comunicar algo para um público específico, precisa pagar. Mas essa troca vale a pena? 

A Folha de S. Paulo não achou e pulou fora. Em fevereiro de 2018, anunciou que deixaria de publicar no Facebook. “A Folha tem sua justificativa, seus argumentos. E alguns desses argumentos compreendemos. São duas empresas capitalistas. O Facebook não remunera as empresas pelo material de qualidade colocado ali. Além disso, tem o Instant Articles, que visa levar conteúdo aos usuários, se convertendo na plataforma de distribuição, entrando no lugar dos sites jornalísticos. Então tem sim uma argumentação que a gente consegue compreender”, afirma Lorena Tárcia. 

Por outro lado… 

Temos a The Economist, uma publicação centenária e super tradicional no mundo dos negócios, que adotou as mídias sociais e pôde verificar não apenas a renovação das suas audiências, mas também o crescimento e amplificação das suas mensagens entre jovens e novos públicos. The New York Times e The Guardian jamais teriam o alcance global que possuem se não tivessem construído uma excelente estratégia de mídias sociais. 

“O principal a ser levado em consideração é a responsabilidade social do jornalismo. Quando a Folha diz que o Facebook se tornou um ambiente de fakenews e o abandona, deixa um ecossistema onde estão circulando pessoas que talvez sequer compreendam o que é fakenews. E em um ambiente que considera especificamente de fakenews”, pondera. 

“Imagina se todas as empresas jornalísticas sérias saíssem do ambiente onde estão circulando a maioria das pessoas, hoje, em termos de redes sociais? Falo de rede social digital aberta, porque no WhatsApp a gente não tem condição de saber exatamente o que está circulando e como. Então, creio que precisa existir um caminho, uma negociação com o Facebook, que também tem o seu lado de responsabilidade social, para que as empresas possam, da mesma forma, receber alguma coisa por estar alimentando a rede com conteúdo de qualidade”, completa a professora doutora. 

Apenas quem participa dos processos tem voz para negociar e pode agir. Ao abandonar a negociação por não se concordar com a forma obscura como as plataformas lidam com o público, com os dados, é se eximir da responsabilidade de poder estabelecer um diálogo para que este ambiente se modifique e ofereça uma distribuição de textos jornalísticos checados. 

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Jornalismo beta 

Tárcia chama de jornalismo beta a oportunidade dos profissionais de comunicação de correr riscos e inovar sempre. Experimentar novas linguagens, maneiras de conversar com as pessoas e levar informações relevantes. 

“Mais do que habilidades técnicas, de saber editar, tratar uma foto, coisas que qualquer um pode aprender com um tutorial no YouTube, as competências são ampliadas nas perspectivas das narrativas de múltiplas linguagens. Então, há importância em saber, ao contar uma história, como utilizar as amplas possibilidades que temos, atualmente, de sensibilizar as pessoas – como áudios, vídeos e infografias”, aponta Lorena, já considerando que em breve poderemos ter acesso, também, a odores e tato. 

Lorena Tárcia, Doutora em Comunicação Social e professora de Jornalismo Online no Centro Universitário de Belo Horizonte

A professora Doutora Lorena Tárcia chama de jornalismo beta a oportunidade dos profissionais de comunicação de correr riscos e inovar sempre

E questiona: “Como podemos pensar narrativas que tenham responsabilidade social em perspectiva de diálogo – e que chamem para o call to action  (CTA), para que os internautas não apenas acessem e leiam notícias, mas que a partir dessas notícias eles possam se engajar com algum tipo de causa?” 

A professora deu algumas dicas sobre o que é necessário para desempenhar um bom jornalismo beta. Separamos em cinco pontos: 

  • Entender muito sobre narrativas sob linguagens diversas (pela palavra, com a linguagem verbal, oral e escrita; pela imagem, com a linguagem visual; pela representação, com a linguagem teatral etc.). 
  • Apuração bem feita com informações checadas. 
  • Saber conversar com as pessoas. Compreender a riqueza e a importância de uma entrevista realizada no cara-a-cara. 
  • Assimilar que o processo de apuração e distribuição de informações (compartilhamento nas plataformas) é um diálogo. 
  • Aprender com startups, marketing e publicidade a dinâmica de primeiro escutar as pessoas para depois ser útil a elas. 

Conclusão 

Aprender a integrar mídias e habilidades pode ser um grande diferencial para o jornalista que busca por atualização, colocação ou mesmo reinserção no mercado de trabalho. Para além das competências “básicas”, aprender a comunicar na era digital se tornou uma necessidade tanto para os profissionais, quanto para as organizações.

Pollyana Dias

Polly Dias é jornalista especialista em conteúdos digitais, com passagens por grandes empresas como Aorta e Jornal Hoje em Dia. Atualmente, escreve para diversos veículos de comunicação e é uma das colaboradoras da Flip.
Pollyana Dias

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